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January 23rd, 2026: Comentário sobre Nietzsche – a poesia como mediadora (extraído da minha Zettelkasten)

Em O Alegre Saber (Die Fröhliche Wissenschaft), Nietzsche busca apresentar a arte como antagônica a qualquer forma de utilitarismo. A poesia, por exemplo, transforma o discurso em cadência, dificultando a compreensão literal de seu conteúdo. Ainda assim, ela se tornou amplamente difundida em todas as culturas humanas desde os primórdios. O filósofo concede aos utilitaristas, na contramão, que, por alguma razão, o verso não apenas marca o compasso da fala, mas também toca a própria essência humana, apaziguando a ferocia animi. A arte é, portanto, a potência criativa humana, atuando como mediadora entre o sujeito e o mundo em que vivemos.

O melos (melodia, em português), como aponta Nietzsche, é originalmente uma meia-solução. A poesia não busca resolver diretamente os conflitos humanos, mas apaziguá-los na alma. A melodia esclarece a realidade, conduzindo à compreensão de nossas relações com o mundo tal como são, e não à sua cessação. Dessa forma, podemos “dançar com a tragédia”, que perde seu caráter amedrontador e passa a ser encarada como parte integrante da vida humana

No teatro grego, que Nietzsche analisa detalhadamente, percebe-se esse desvio da natureza. Quando as personagens articulam suas palavras com proficiência, mesmo diante do inimigo, elas rompem com a realidade, agindo como ideais éticos e narrativos para o ser humano. Assim, a tragédia não apenas representa a vida, mas a reconfigura esteticamente, oferecendo ao espectador uma mediação entre realidade e criação artística.